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A escritora polonesa Olga Tokarczuk, autora de livros como Escrever é muito Perigoso e Sobre os Ossos dos Mortos, vencedora do Nobel de Literatura e do International Booker Prize em 2018, tornou-se o centro de uma polêmica após admitir o uso de inteligência artificial em seu trabalho.
Aos 64 anos, a autora participou do evento Poznan Impact, na Polônia, que envolve painéis e debates sobre assuntos atuais e de impacto cultural. Durante uma mesa, ela falou sobre a literatura contemporânea e admitiu o uso da inteligência artificial para auxiliar no processo de escrita de seu próximo lançamento.
Durante o papo, publicado pelo portal My Company Polska, a escritora fala com tristeza sobre o momento do mercado editorial, que, segundo ela, não é capaz de cobrir os custos de um trabalho extenso e pagar por ele de forma adequada. A autora conta, então, que adquiriu um modelo avançado de linguagem de inteligência artificial, que consultou para "aprofundar seu pensamento criativo". Tokarczuk admite ter ficado chocada com a capacidade da máquina de aprofundar pensamentos, mas diz que é necessário ter cautela durante suas consultas.
"Essas conversas são cativantes e, por isso, é possível perder de vista o propósito original de usar a inteligência artificial para, por exemplo, aprender ou descobrir teorias extraordinárias. Mas é necessário ter cuidado com as alucinações. Quando eu estava escrevendo o meu último romance, perguntei a este modelo de IA quais músicas meus personagens poderiam estar dançando em uma festa há algumas décadas. A IA sugeriu alguns títulos e adicionou Golec Lokiestra, com este erro de escrita", compartilha a escritora. A IA, vale contextualizar, provavelmente referia-se ao grupo de folk-rock polonês Golec uOrkiestra quando errou os nomes.
Na sequência, Olga conta que compartilha ideias com a inteligência artificial para "embelezar" seus pensamentos durante o processo criativo.
"Eu costumo lançar ideias para a máquina para análise e perguntar: 'Querida, como eu posso desenvolver isso de forma mais bonita?' Mesmo sabendo das alucinações e dos inúmeros erros factuais nos campos de economia e dados, devo admitir que, na fluidez da ficção literária, a tecnologia é um recurso de proporções incríveis. Ao mesmo tempo, sinto uma tristeza profunda e humana por uma era que está desaparecendo para sempre. Dói em mim o fato de a literatura tradicional, escrita por meses em solidão, estar sumindo."
A declaração repercutiu em portais de literatura americanos após trechos da entrevista serem compartilhados nas redes sociais pelo escritor Maks Sipowicz. Diante disso, Olga emitiu uma nota ao portal Literary Hub esclarecendo as circunstâncias em que usa a inteligência artificial. A nota foi traduzida para o inglês por Antonia Lloyd-Jones.
Leia o texto, na íntegra:
"Como em qualquer outra conversa, observações que fiz em frente a um público em um evento podem ser entendidas de forma incorreta.
Eu não escrevi meu próximo livro - a ser publicado no segundo semestre de 2026 na Polônia - usando IA ou com qualquer outra pessoa. Durante muitas décadas, eu sempre escrevi sozinha.
Eu declaro breve e firmemente:
1 - Eu uso a inteligência artificial sob os mesmos princípios que a maioria das pessoas no mundo - trato-a como uma ferramenta que me permite documentar mais rapidamente e checar informações. Sempre que uso a ferramenta, também verifico as informações. Assim como fiz por muitas décadas lendo livros e explorando bibliotecas e arquivos.
2 - Nenhum dos meus textos, incluindo o romance que será publicado, foi escrito com ajuda de inteligência artificial - exceto o seu uso como uma ferramenta para agilizar as pesquisas preliminares.
3 - Algumas vezes sou inspirada por sonhos, mas, antes de esta frase também ser analisada e criticada por especialistas, devo reportar que são os meus próprios sonhos."
Quem é Olga Tokarczuk?
Nascida na Polônia em 1962, Olga Tokarczuk é psicóloga por formação e trabalhou como terapeuta antes de se dedicar à literatura. Desde 1989, já publicou diversos contos, romances, ensaios e poesias. Seus títulos mais recentes incluem Terra de Empusas: Uma História de Horror no Sanatório, Correntes e A Alma Perdida (Todavia).
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