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Ampliar a inclusão digital no Brasil é uma questão urgente para o mercado. A análise de especialistas no tema é de que é preciso uma política pública em nível nacional para letrar digitalmente a população e oferecer novas oportunidades de trabalho.
"A gente tem de ter o poder público como o grande (vetor de um) programa de educação digital", afirma Carmela Borst, CEO da SoulCode Academy, que trabalha com a formação de pessoas em vulnerabilidade digital e no letramento em IA. A SoulCode Academy é uma empresa brasileira com foco na qualificação de pessoas "não óbvias". Ou seja, pessoas negras, que vivem em favelas, LGBTQIA+ e pessoas com deficiência, entre outras.
Mulher negra e mãe, Patricia Toledo Alves se formou em Engenharia de Dados e rompeu o padrão visto entre os profissionais da área. Ela participou da mesa Inclusão Digital e Produtiva: Quem Participa Constrói a Economia Digital, no São Paulo Innovation Week, nesta quarta-feira, 13.
Patricia fala sobre a importância de ampliar o acesso à formação para tecnologia e o letramento digital: "Se você começa a olhar sempre para uma mesma caixa e achar que as soluções virão sempre dessa mesma caixa, com essas pessoas padrões, então as soluções diferentes que a gente precisa, nunca virão".
Carmela Borst explica que é fundamental para o mercado ampliar a participação de pessoas que correspondam ao perfil da maioria dos brasileiros. Segundo ela, os governos precisam se mobilizar para garantir esse aprendizado. "Se a maioria não tem competência digital, a gente tem um problema", afirma.
Para Fábio Henrique Alves da Silva, CEO e fundador da Rede Muda Mundo, exemplos potentes, como o de Patricia, têm o poder de mobilizar e escalar soluções: "Se a gente tiver a capacidade de colaborar, o governo vai ter de sentar na mesa, a política pública vai ser empurrada goela abaixo".
A organização criada por Silva é um centro de inovação social que atua na mobilização de pessoas e articula diferentes parceiros e conecta voluntários com causas sociais. Um dos trabalhos de destaque da Rede foi diante das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Na ocasião, a plataforma foi indicada pelo próprio governo estadual para organizar a ajuda disponível.
A partir de sua experiência, ele explica que as iniciativas ganham escala quando há exemplos emblemáticos e inspiradores, como Patricia. Ele defende ainda que o setor privado, o setor público e o terceiro setor trabalhem em colaboração no tema. "A religião nos separa, o lado político nos separa, a regionalidade nos separa. A gente tem que parar de olhar para as diferenças e nos unir", argumenta.
Ao longo da palestra, a jornalista e mediadora Heloisa Gomyde trouxe dados alarmantes. Apenas 3% da população brasileira têm habilidades digitais consideradas "avançadas". O Brasil está atrás não só no contexto global, mas também no aspecto regional, considerando a América Latina e o Caribe. "A gente está na lanterna."
'Vulneráveis digitais'
Ao mesmo tempo, 86% dos empregadores apontam a Inteligência Artificial como a principal tendência do mercado de trabalho. "O vulnerável digital está em nossas casas. Se vc esticar o braço, vai encontrá-lo. Essa pessoa não recebeu letramento para fazer uma jornada digital", explica Carmela Borst. "A maioria das pessoas com mais de 60 anos tem uma profissão, mas se não aprender a usar a tecnologia está fora do mercado."
Patricia Alves voltou ao mercado de trabalho após obter a formação de engenheira de dados. Mãe de três filhos e com 43 anos, ela conta que durante sua trajetória acadêmica não tinha nem sequer um computador que suportasse a carga de dados explorada no curso. "Eu tinha um celular, um caderno, um lápis e um sonho", relata. "Na décima semana de curso eu estava contratada. Não foi uma jornada fácil, mas se eu estivesse esperando, eu não teria chegado até hoje."
O São Paulo Innovation Week, maior festival global de tecnologia e inovação, é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, entre esta quarta-feira, 13, e sexta,15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento, estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.
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